Dia de eleição

A fome, a seca, o vício, a pobreza e todas as outras amarguras humanas continuarão a existir. Talvez porque a cada quatro anos alguém sairá de seus muros altos e iludirá toda a gente com seu discurso vago e emotivo. Talvez jamais se preocupem em despertar a racionalidade nessas pessoas transformadas em votos, por isso, não será prioridade melhorar escolas. No máximo, falarão em quadras de esportes.

E a gente que não sabe do que é capaz será acalmada com o discurso religioso. Dirão que a seca é culpa de São Pedro; que a fé em Deus é a saída para o vício; que a fome é castigo Dele e que esperar Nele é a solução. Caso alguém se atreva a contradizê-los, inventarão que as visões políticas e o discurso deste almejam apenas o caos e a bagunça social. Logo incutirão nas cabeças de todos que a mudança esperada não existe e que, portanto, continuar na mesma será melhor. 


E a gente humilde, de memória curta, de saúde fraca, verá naquele homem político, bem polido e religioso a redenção de seus problemas. Se têm fome, doença e ócio e alguém o promete, olhando nos olhos e apertando as mãos, que dará comida, saúde e ocupação, dizendo ainda que reconhece piamente todos aqueles problemas a ponto de senti-los na pele, será difícil discordar.

E por quatro anos a mais as amarguras citadas inicialmente perdurarão.

Sobre o menino que virou espetáculo

Ao ler esta narrativa, talvez você a classifique como ficção. Não errará. No sentido de simular, certamente é uma ficção. É uma simulação da nossa realidade. 

Nove meses contados após o carnaval, nasce Nazareno. Seu pai não chegou a vê-lo; nem este título recebeu. A mãe, ainda jovem, viu nascer sua nova realidade. Dali em diante tudo tenderia a ser mais difícil, mas Nazareno poderia lhe recompensar: costumava pensar assim. Seus pais, os avós do menino, assumiram o papel de pai e prometeram nunca abandonar Angelina. 

Aos três anos, foi chegada a hora de matricular Nazareno na escola pública do bairro. A avó comprou um par de tênis para ele, além da farda zerada e da lancheirinha com o tema do herói preferido do neto. Ele estava ansioso para entrar naquele mundo que tanto lhe falavam. Descobriria os livros, os professores, a imaginação. A mãe, agora com mais tempo disponível, conseguiu um emprego de faxineira em uma casa boa e grande na zona leste. Pagavam bem.

Seus patrões eram bons também. Além de garantirem todos os direitos de funcionária, eram respeitosos e vez ou outra doavam roupas e livros usados do filho único, Tales, para Nazareno. Este fazia bom proveito deles, principalmente da literatura. Angelina orgulhava-se do filho, e isto se multiplicava quando passavam pela sua memória todas as dificuldades enfrentadas até aquele momento. Alegrava-se ao perceber que a ausência do pai pouco afetava Nazareno.

Em um desses presentes, havia um tênis seminovo. Para Tales, já estava passado; a moda agora era outra. Mas, para Nazareno, era novíssimo, e os que lideravam a comunidade onde morava compartilhavam dessa mesma opinião. 

Já no ensino médio, para sua desventura, chegou um aluno novo na sala. Mauro havia reprovado. Teria que cursar novamente o primeiro ano do médio e foi despejado na turma de Nazareno. Quando entrou na sala, todos olharam torto para o repetente. Sabiam a razão da sua reprovação. No final do ano anterior, Mauro foi elevado a líder da gangue do bairro. O ex-chefe havia sido assassinado em uma dessas operações policiais noturnas. Agora era a sua vez.

Nazareno, em sua bondade, não tratou Mauro com desprezo, como os demais. Mas prezou por certo distanciamento. Não era bobo. E essa cautela foi crescendo quanto mais o colega examinava, de longe, seu tênis. “Mal sabia ele que era usado”, pensava. A questão era mais profunda: o novo chefe observava seu porte físico, sua força aparente, sua altura e, claro, sua boa relação com os números e letras. Sobre o tênis, roubou qualquer dia desses, em qualquer beco desses. E deixou um aviso: você já está na idade de conhecer o lugar em que mora. 

Nazareno sentiu medo. As aulas agora acabavam pela noite. E a noite era escura, escondia tudo. O aviso não saía de sua cabeça. O que Mauro queria dizer? Mauro queria uma espécie de contador para seu grupo. Essa seria a peça que o faria vencer dos outros. O lucro aumentaria. Os viciados também. 

Sob ameaças contra sua família, entre torturas e mortes, Nazareno se viu brutalmente obrigado a entrar para a gangue. Seria responsável pelas contas. Mas, em uma noite escura, após a aula, as contas não bateram. 

Era noite de sexta-feira. Nazareno, depois do colégio, foi cumprir horário na boca. Chegou lá, não encontrou ninguém. Em seu pensamento, seria menos mal assim. Mas, na verdade, pouco sabia o que o esperava.

Todos os outros haviam fugido. Conseguiram um furo. A polícia bateria lá naquela noite. E bateram. Só encontraram Nazareno. E só prenderam Nazareno. Filmaram apenas Nazareno. 

Angelina correu desesperada. O patrão a chamou a gritos. No noticiário do meio-dia, a resposta para Angelina sobre a noite em que o filho não dormiu em casa. O rosto de Nazareno foi exposto sem pena. Na legenda, o criminalizavam. O editor de textos e vídeos, talvez juiz, já o condenava. “Estourada mais uma boca-de-fumo na cidade! Policiais prendem o chefe!”. A repercussão foi enorme. E o quadro piorou quando Nazareno, durante entrevista, apareceu ferido e mudo. Mudo porque não o deixaram falar. Já estava sentenciado. Calaram seu direito de defesa.

A mãe estava inconsolável. Sabia de quem era a culpa de tudo aquilo. Mauro. Só pensava em Mauro. Não disse nada a ninguém. Jogou o avental encima da mesa, pagou a bolsa. Foi embora. Deixou o choro e o drama como explicação. Angelina correu. Correu muito. E encontrou Mauro. Cortou. Rasgou. Jurou. Pôs fim. 

Matou Mauro. 

Angelina foi condenada a 20 anos de prisão. Mas sabia que não sairia nunca mais daquele lugar asqueroso.

Nazareno foi condenado a outros tantos anos de prisão. Também foi condenado pelos espectadores; prisão perpétua. 

Seus avós faleceram. A vida não faria mais sentido.

No ano seguinte, o apresentador daquela imagem fatídica foi eleito vereador. 

Com mais de cinco mil e vinte votos, prometeu zelar pela segurança da cidade.

Nazareno e a mãe Angelina não se viram nunca mais. A vida foi cercada. O cerco era de cimento e ferro. Enferrujado.

A noite no centro da cidade

Centro da cidade.

São nove horas da noite de um sábado.

Em frente ao teatro, Deus é louvado.

Na esquina, os flanelinhas deliram.

O menino passa, sem rumo, atordoado. Seus olhos não sabem mais para onde olhar. Estão grandes, espantados. Seu rosto está sujo. Seus ossos aparecem. Sua infância foi queimada; sugada. É agora o retrato de um vício precoce.

A mulher passa por eles e pede que Deus a proteja. 

Enquanto isso, o menino desprotegido pede apenas moedas.

Mas o teatro está em festa. O teatro dança. Lá dentro é fantasia. É vida representada. É além-vida.

E do lado de fora é vida real. Sem máscaras, aparece a carcaça nova e já desfigurada. 

A festa acaba. Todos voltam para suas casas. O filho pede refrigerante. O pai paga o flanelinha.

O flanelinha, então, festeja seu lucro e faz sua festa na calada da entrada da loja que à noite não funciona.

Todos agora dormem: o empresário, o pai, o filho, os dançarinos, a mulher e os devotos.

Mas o menino ainda anda. Anda sem rumo. Anda sem vida.

E queima sua trajetória na lata amassada pelo filho.

Quem é o povo?

A rotina de Solimar é simples: acorda cedo, pega a condução, chega ao colégio particular, limpa corredor, limpa chão e vaso sanitário. Mas Solimar é mais que isso. Nas horas vagas, conversa com os alunos que estudam no andar pelo qual é responsável; sempre com um sorriso, pergunta pela vida e se preocupa com eles com zelo de mãe; e com quem tem mais intimidade chega a mostrar orgulhosa a foto do filho formado em Medicina. Talvez essa seja a maior vitória de sua vida. Ou então a recompensa. Caráter ímpar, simpatia, alegria. Solícita e educada. Já carregava uma vida longa. Uma idade avançada para o trabalho que leva: o caminhar torto denuncia. Mas caminha e está ali. Correta e forte. Nada de tristeza ou lamento. Entre um corredor e outro, Solimar olha pela janela da sala de aula que limpava o mundo a perder de vista. No que pensa Solimar?

Um dia ela ouviu do repórter da TV uma frase que a entristeceu. Em meio a um tumulto pela chegada de uma atleta, e a pedidos de organização, o tal jornalista gritou: “Isso aqui é assim mesmo, é coisa de povo!”. E ficou a pensar: qual a relação que esse tal encontrou entre povo e desorganização, baderna?

Solimar pensou nisso insistentemente e descobriu que há muito mais por trás das letras. Percebeu que a palavra que por tantas vezes se identificou (talvez por sua simplicidade) era usada por outros com apelos diferentes. Se falavam “povo”, poderiam querer dizer “pobre”. Até aí ela não via problema; pobre não era defeito. Mas se falavam “povo” querendo dizer “sem educação”, “gente baixa” ou “qualquer coisa que se referia a pessoas que não mereciam dignidade”, Solimar viu grande problema.

E então decidiu-se. Pôs fim à audiência que dava àqueles programas populares, para o “povo”; percebeu que em nada eles contribuíam para sua existência. O tal repórter, Pedro Alguma Coisa, fez questão de nem procurar saber seu sobrenome. E foi mais adiante. Indecisa sobre as votações que se aproximavam, ela cortou as possibilidades de voto de todos aqueles candidatos bem vestidos e penteados que a cada 10 palavras, adivinhem, 7 eram “povo”, ou ainda “meu povo”.

Solimar se desiludiu com todos. Tornou-se fria. Não se impressionaria mais tão facilmente, prometeu a si mesma. Daquele dia em diante, o verdadeiro povo mal educado, que agia com baixeza e que, por isso, não se fazia merecido de tanta dignidade e exaltação, eram todos aqueles personagens: o repórter de paletó bonito, mas de vocabulário sujo; o candidato que se fazia próximo do cidadão mais pobre, mas que se utilizava de um conhecimento mais elevado para ludibriar todos eles; e o restante do time que seguia por esse caminho.

Depois de pensar tudo isso em um dia só, deitou-se e dormiu. Sabia que no outro dia várias salas de aula a esperavam para a limpeza. E outros tantos alunos, seus amigos, perguntariam a razão de seu silêncio no dia que passou. Seria, para ela, mais um dia de ensinamentos. Diria a todos que não era mais povo, era sociedade.

O índio e o homem branco (nós)

Minha mãe é professora de Geografia. Meu pai é jornalista. Minha mãe nunca me deu aulas sobre índios. Meu pai nunca fez reportagens sobre eles. Mas não me esqueço das fantasias que por repetidas vezes minha mãe fez questão de me fantasiar. Tenho fotos com pena no braço e na cintura. Rosto pintado de vermelho. Cabelo preto, “mais preto que a asa da graúna”. E não me vestia assim apenas para as festas do colégio no dia do índio, mas também em outras datas festivas do colégio. Daquela fantasia nunca me esqueço.

Da cultura indígena, naquela idade, eu não sabia muito. Sabia da rede, do respeito à natureza, do milho. E só com o tempo fui aprender sobre tudo de mais relevante e significativo que forma a cultura dos verdadeiros brasileiros.

Hoje vi na televisão, na mesma emissora que há alguns meses mostrou nossos conterrâneos como invasores de terras na Bahia, uma aula de sabedoria e senso de coletividade dada por estes, os indígenas.

Quando vi a propaganda anunciando o programa de hoje, esperei a exibição de cenas ambíguas que provocariam dúvidas quanto à cultura deles. Esperei que o repórter se manteria distante ou distanciado deles durante as gravações. Imaginei que durante todo o programa alguém traduziria suas falas de idioma diferente do nosso. Que alguém iria simplificar para os telespectadores seus ritos e manifestações culturais. Eu confesso, pensei assim. Mas não foi isso que ocorreu.

Durante aproximada uma hora, eu assisti a uma emissora que se mostrou inédita. Sem preconceitos ou etnocentrismos, sem distanciamentos, sem diminuições. Mesmo que receoso da aproximação, o repórter mostrou-se surpreendido com aquele povo e esforçou-se para agir naturalmente. Para mim, conseguiu. Mesmo assim, o foco deste texto não é a equipe de reportagem.

Do jeito que posso, quero ascender as luzes para os verdadeiros protagonistas da noite: os índios. Certo que foi mostrada apenas uma das várias tribos existentes (nem tão ‘várias’ assim atualmente), mas ouso dizer que representaram a principal filosofia de vida da cultura indígena.

Ao contrário do que muitos pensam, eles não necessitam de tradutores a todo momento. Por conta do futuro incerto que hoje se faz presente, eles tiveram que aprender um pouco da nossa língua e assim o fizeram. E quando a nós, o que fizemos para nos aproximar linguisticamente deles? Contratamos tradutores.

Criticamente, foi abordada no programa uma das consequências negativas da criação de barragens e hidrovias que afetam diretamente o cotidiano das tribos: a diminuição da quantidade de peixes, alimento principal da região. E o que foi mostrado em seguida? Construções planejadas e executadas pelos índios de pontes para viabilizar a pesca. Deram-nos um tapa: suas construções são temporárias para que não causem danos ao ciclo natural das águas. Novamente percebi a falha do desejo do ‘homem branco’ ao priorizar a moeda, disfarçada de construção para o benefício humano.

Por último, cito o principal elemento constituinte da sabedoria indígena e, felizmente, uma das mais lembradas nas aulas sobre respectiva cultura: o senso de comunidade e harmonia.

Dezenas de pessoas morando e dividindo um mesmo lugar, partilhando da mesma crença e do mesmo alimento. Indo para a caça com o objetivo de partilha claro na mente. Enquanto nós, o que fazemos? Gradeamos nossas casas e montamos mercados nas esquinas. Trocamos comida por dinheiro, ao mesmo tempo que alguém chora de fome do nosso lado.

Pensemos.

A Veja amarelou

Capa da revista Veja

13 de maio de 2012: domingo, feriado do Dia das Mães; tenho em mãos a última edição da revista Veja que, surpreendentemente (ou propositalmente) deixa a data festiva passar em branco. A empresa, totalmente fiel a seus ideais políticos e econômicos reserva o espaço completo da capa para anunciar matérias de autodefesa e ataque a seu velho alvo de combate: o partido nacional que mais representa a esquerda política.

As razões para tal são óbvias e atuais: a revista é alvo de denúncias sobre ligações com políticos corruptos, por utilizar sua grande visibilidade como meio de comunicação para defender partido X e atacar, sem pena, partido Y.

Como inevitável impacto dessas suspeitas, o periódico perdeu a credibilidade com muitos leitores, e como tentativa de reverter esse quadro apelou para mais algumas falsas notícias.

Em longas letras está como um título daquela edição a frase: “A imprensa acende a luz.”. Um pouco acima, na foto da capa, vê-se uma lanterna acesa sobre um papel, direcionada para o artigo 220 da Constituição Federal, o qual refere-se à liberdade de imprensa. Sua parte mais nítida diz: “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.”. Indiretamente, Veja tenta buscar um apoio legal para basear uma falsa liberdade de imprensa que ousa dizer que faz uso. Passa a considerar legítimas as acusações de corrupção e conduta incoerente frequentes a partidos políticos, que algumas vezes não chegam a comprovações, como exemplo de exercício de cidadania e modo de dar voz à liberdade/libertação.

Na parte superior da capa, são enunciadas mais três matérias.

A primeira resume-se a: “Como ruiu a tentativa dos mensaleiros de usar a CPI do Cachoeira para atacar a Veja.” Como é de hábito, não perde a oportunidade de citar, pelo termo “mensaleiros”, seu alvo mais atacado: o PT (e por consequência seus aliados). Diz ainda que as acusações de vender-se a políticos para adquirir informações e difamar o outro partido não passaram de meras tentativas sem sucesso, que “ruíram”. Será mesmo que a revista tem tanto controle sobre a reação do público diante das denúncias envolvendo seu nome? E quem ataca quem nesse embate de décadas?

O segundo texto diz: “Antonio Fernando, ex-procurador-geral da República: ‘Negar o mensalão é uma afronta à democracia’.” Aqui, tenta utilizar a opinião de um profissional de alto cargo público para elevar a relevância da afirmação, a qual é compatível com seus ideais. Novamente tenta atacar os mensaleiros - PT e aliados - e, ainda, desviar a audiência de suas falhas para a grande falha daquele partido, já conhecida há tempos.

Por último, tem-se: “As táticas de guerrilha para manipular as redes sociais.”. Incansavelmente, mais uma vez faz referência negativa à Esquerda quando usa o nome “guerrilha” unido ao verbo “manipular” (prática corriqueira da empresa Veja). E tenta falsear a reação do público potencializada nas mídias - livres - sociais de crítica intensa à revista, dando um caráter vazio de mera manipulação.

A revista já percebeu o enorme poder conscientizador e de debate que as mídias sociais proporcionam a seus usuários. Nelas não há polarização de notícias devido a seu enorme campo. Não há espaço para dominação de um sobre outro; existe espaço suficiente para todos. E, mesmo que sem querer, Veja definiu exatamente o caráter de sua vilã: Uma imprensa que acende a luz.

Aqui não há portas nem janelas que impeçam a luz de entrar. Se no mundo do papel escreve-se o que mandam, no mundo dos fios e das telas transmite-se o que se quer. E um dos principais desejos dessa nação jovem e maltratada é verdade e justiça.

Que se combata a imprensa suja, amarela. Que seja dada luz à verdade.

Robert Rios, a greve e a violência

Hoje, oito de maio, está em andamento o 72º dia de greve dos professores estaduais do Piauí. Também hoje foi noticiado nos principais portais da cidade um fato que, de tão absurdo, me intimou uma crítica.

Tentando uma fuga de suas responsabilidades como secretário estadual de Segurança Pública, Robert Rios teve a infelicidade de proferir que “Milhares de jovens foram arrancados das salas de aulas. […] Toda vez que uma greve dessas ocorre, há um aumento no consumo de drogas e da violência. Um exemplo que confirma isso é que no interior do estado a situação está normal, ao contrário da capital. […] A culpa é das escolas paralisadas”, como raciocínio para o alarmante crescimento dos índices de violência na capital.

De tão insensatas que são essas palavras, é possível ficar até sem se saber o que fazer, o que pensar. É muito preconceito e muito atrevimento por parte de um político - figura pública - levantar tal relação entre educação pública e violência.

Considerando que a maioria das pessoas que usufruem de escolas públicas são de baixa renda, o secretário de segurança comete equívocos ao jogar para essas mesmas pessoas toda a responsabilidade pelos níveis de violência e uso de drogas que ocorrem e crescem na cidade, uma capital.

Será que os usuários de drogas, em Teresina, são apenas indivíduos das classes menos remuneradas? E as drogas mais caras, quem consome? Quis dizer então, o senhor Robert Rios, que quem tem dinheiro está a salvo da praga das drogas ilícitas? E no interior do estado, não há tráfico de drogas e seu consumo? Será mesmo que não? Grave engano.

Outra visão preconceituosa dita pelo secretário corresponde à ideia de violência associada às camadas menos abastadas. Que argumento provaria que, por não ter uma condição financeira próxima da condição da elite da cidade (composta por muitos políticos, inclusive) um indivíduo cometerá crimes? Nada justifica. Há meses uma jovem foi assassinada na capital e os principais suspeitos são muito bem abastados. Pena que os órgãos públicos de segurança não foram capazes e independentes o suficiente para concluir o caso…

E o que dizer dos crimes contra a população que muitos políticos praticam? Crimes estes que vão de atropelamento de professores à desvio de dinheiro público, passando pelo nepotismo? Robert se mostra muito equivocado.

Finalizo essa crítica com o lamento de a cada dia podermos perceber, enquanto sociedade, a verdadeira e deprimente face dos que foram escolhidos para nos representar e a preocupação destes em fantasiar histórias que justifiquem suas falhas enquanto gestores.

Diga o que disser. A greve continua.

O Estado de greve

Na semana que corre, Teresina foi presenteada com dois ilustríssimos acontecimentos.

Um corresponde à ascensão de Lilian Martins ao cargo - vitalício - de conselheira do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, contas estas que serão feitas durante o governo de seu queridíssimo marido. À primeira vista, inicia-se um raciocínio confuso, mas se considerarmos que em menos de 3 anos a ilustríssima alcançou nada menos que 3 cargos públicos bem remunerados e de considerável visibilidade, o caminho muda de rota ainda mais.

Conseguiu emplacar como deputada do Estado do Piauí, posteriormente ganhou a  secretaria de saúde do Estado do Piauí e, durante esse tempo permanece como primeiríssima-dama do governador do Estado do Piauí.

Quer maior prova de fidelidade ao seu Estado do que esta?

Lilian: mais piauiense, impossível.

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O segundo ocorrido se passou hoje, dia 3 de maio de 2012.

Durante a manifestação dos professores estaduais, o deputado Antonio Uchoa (PTB), encenando mais um espetáculo político piauiense (quiçá brasileiro), dispôs-se a eliminar de seu campo de visão uma pobre funcionária pública que reivindicava direitos de classe. Supostamente cansado de esperar sentado (em sua Hillux) que parassem de bloquear seu caminho, simplesmente pisou no acelerador e ‘cantou pneu’.

Disse que atingiu apenas uma cadeira plástica, mas não foi desta que saiu sangue. E sim dos joelhos de uma educadora.

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E o que esses dois fatos têm em comum? Os sentimentos gerados na sociedade. Aos poucos e meio atrasados vamos percebendo quem veste a pele de cordeiro e quem faz questão de se mostrar lobo. Seus passos vão servindo para nos acordar. Seus movimentos abrem nossos olhos vagarosamente. O Estado está em greve. Sentimos repúdio.

Sobre as cotas e a nossa estupidez

Enfim as cotas foram legalizadas no Brasil.

Jamais esqueci das aulas de História que tive sobre o período escravocrata brasileiro, dos exemplos de castigos que eram aplicados aos escravos “desobedientes”, da discriminação sofrida por eles e de toda a ignorância estrangeira e europeia posta em prática no nosso país naqueles séculos.

Como se não bastasse estragar nossa cultura inicial - a indígena - trouxeram na marra africanos para cá e ridicularizaram suas vidas, seus costumes e crenças. E conseguiram perpetuar isto por outros séculos. Livremo-nos.

Deixemos de lado a visão de que as cotas contribuem para mais preconceito: elas vieram para diminuí-lo.

Uma das explicações da aplicação de cotas raciais (termo este que considero inadequado) é o contorno social que os escravos alforriados obtiveram. Com muito atraso, foi proibida a escravidão no Brasil, mas nada foi feito para que aqueles libertados tivessem um futuro melhor, ao menos um futuro. Com o decorrer das décadas, a situação social não melhorou em quase nada. Sem políticas sociais integrantes, sem educação, sem oportunidades. Foram esquecidos, minimizados. A discriminação continuou.

Atualmente esse quadro mudou para melhor, não se pode negar. Mas até hoje não me recordo de grandes ações concretas por parte do Governo para desculpar-se diante de vários anos de erro cometido contra essa grande parte da nossa população atual. Sim, pra isto servem as cotas, para pagar por essa dívida histórica e cultural.

É triste, porém inegável que dentre os presidiários, a maioria é composta por visualmente negros. Que nas escolas particulares, quanto mais custoso for seu ensino, sua maioria de alunos será composta por visualmente brancos. E que dentre os ricos do país, a minoria é negra. Talvez por herança cultural, talvez não.

E então entram as cotas, visando a aumentar as oportunidades para negros que queiram optar por elas (leia-se: cotas são opcionais). Apenas com a igualdade de oportunidades para qualificação poderá haver disputa justa e não simplesmente escolha de esteriótipos fúteis e questionáveis.

E para quem pensa que isto é “coisa de governo corrupto, que não quer gastar com melhoria do sistema de educação, e sim roubar mais, etc”, lamento pela visão generalizada de que todo político é igual. Não são. Mas a culpa não é só de quem pensa assim. É também de quem contribuiu para a formação dessa perspectiva.

Talvez, em um dia tão sonhado, a mídia que se faz aqui mude um pouco seu método de alcançar público e audiência. Talvez desista de inflamar nossos ouvidos com corrupção e fraudes fraudadas por elas mesmas. Talvez desistam também de mostrar uma ficção rica branca que paga pretos para lavarem suas roupas, guiarem seus carros e permanecerem invisíveis.

Abramos os olhos.

Existir ou obedecer

Hoje acordei cedo, com um sentimento positivo, como se fosse um dia diferente. Como se não me lembrasse da aula, questionei o que faria hoje. Caí na real e lembrei da universidade.

Incrivelmente, ao chegar lá, ocorreram dois fatos de extrema ligação.

Durante a primeira aula, assisti a um filme cujo objetivo permeia a reflexão sobre o exercício do Jornalismo (investigativo), no qual uma jornalista arrisca-se para conseguir uma reportagem de grande relevância mas se vê impotente ao receber a notícia de que sua matéria havia sido vetada, não seria publicada. Os motivos? A empresa de comunicação para a qual trabalhava tinha vínculos com empresários de peso e grandes políticos. A representação de cidadania do meio de comunicação esvaiu-se.

Durante a exibição da cena em que a jornalista arrisca-se ao seguir um maníaco sexual, uma amiga de curso recebe via celular a mensagem de que um jornalista maranhense foi brutalmente assassinado. E não era ficção. Imediatamente relacionamos nossos futuros com o crime. Adicionamos mais um risco (de tantos) às nossas futuras profissões.

Décio Sá trabalhava no jornal O Estado e possuía um blog. Através deste fez uso da comunicação para mostrar o que se passava na sociedade, principalmente na esfera política, campo minado em nossa realidade. Não se calava e tampouco fazia-se de cego diante a acusações e jogos políticos. Talvez por isso alegaram sem temer que seu assassinato foi encomendado.

Tamanha certeza leva a crer que no Brasil, principalmente em locais mais atrasados ainda há um extremo desrespeito à liberdade de imprensa. Lá (e aqui) vale a lei do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Os corruptos mandam e demonstram o poder através de atos incoerentes. O povo obedece, permanecendo alheio. Mas Décio não permaneceu. E mais: por meio de sua profissão, contribuiu para o fim desse alheamento.

Lamentavelmente o ditado não findou-se. Os tempos ainda não mudaram. Sente-se que não se deve falar dos podres e, antes de tudo, verdades dos poderosos. Eles têm e mostram quando bem querem suas armas.

Mas apenas eles têm armas?